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Estradas sustentáveis: infraestrutura e respeito ao meio ambiente

Imagine a cena: um gato do mato está do lado direito de uma rodovia enquanto você dirige a 120 Km/h, limite permitido no local. O animal se encontra a exatos 120 metros do seu veículo quando decide atravessar a rodovia. O seu tempo de reação para iniciar a frenagem, em média, será de 1 a 1,5 segundos, tempo suficiente para o carro percorrer de 33 a 50 metros. Após acionar o freio, o carro precisará de 90 a 120 metros para parar. O gato não poderá hesitar. Ele precisará de cerca de 1 a 2 segundos para atravessar correndo uma pista de 3,5 metros, supondo que seja mão única.

Se o evento ocorrer à noite, tenha em mente que o seu farol baixo iluminará apenas 50 metros à frente ou menos. Se estiver com farol alto, pode ser que ele ilumine 100 metros ou um pouco mais. Com limite de 120 km/h, é quase certeza que a rodovia terá mão dupla. Ou seja, o gato não poderá congelar e terá que percorrer o dobro. Enfim, podemos continuar elucubrando sobre as possibilidades, como o outro lado da rodovia que faltaria ao animal atravessar, se ou não essa rodovia teria um divisor de pistas, se você estaria com o olhar atento 120 metros à frente, se choveria etc.

Nem levemos em conta o perigo para os ocupantes do veículo ao sofrerem uma desaceleração tão brusca e a possibilidade de travamento das rodas, capotamentos e colisões. O fato que é que tanto você, os ocupantes do veículo quanto o animal seriam colocados numa situação tão perigosa que você ficaria incomodado com a maioria das nossas rodovias, as quais raramente são sustentáveis, especialmente em relação à vida selvagem. Ainda que você não goste ou não ligue para o meio ambiente e vida silvestre, saiba que a sua reação seria frear e/ou desviar por instinto.

O perigo da fragmentação de habitats nas rodovias

Estendendo-se por centenas ou milhares de quilômetros, uma rodovia e suas interligações não fornecem pausa para os dois lados de mata, floresta ou plantações. Ela simplesmente estabelece uma barreira entre vários ecossistemas. A ecologia chama isso de “fragmentação de habitats”. Ao transformar as florestas em “ilhas”, ocorrerá impactos profundos na biodiversidade. Existem vários trabalhos e artigos acadêmicos sobre o assunto.

Há, ainda, impactos microclimáticos, os chamados “efeitos de borda”. Eles causam degradação das margens, modificação da flora e perda de microhabitats. A abertura de uma rodovia ou estrada expõe o interior da floresta ao vento, calor e à radiação solar. Anfíbios, insetos e pequenos répteis dependem da umidade do solo e sombreamento florestal, destruídos pelas rodovias. As barreiras luminosas e sonoras também contribuem para a degradação e o sofrimento da fauna.

Corredores Ecológicos e Passagens de Fauna: a solução da Engenharia

Um caminho para dirimir o impacto das rodovias e estradas no meio ambiente é a implementação de corredores ecológicos. Eles conectam os fragmentos florestais, promovendo o intercâmbio entre os ecossistemas separados pelas construção de rodovias, agricultura e a urbanização.

Ecodutos e túneis servem como passagens de fauna, o plantio de florestas contínuas nas margens das estradas e a regeneração de áreas de preservação permanente (APP) bem como a manutenção de matas ciliares são recursos já usados em alguns estados do Brasil.

O corredor do Mico-Leão-Dourado no RJ combinou o plantio de milhares de árvores nativas com a construção do primeiro viaduto vegetado em uma rodovia federal (BR-101). O corredor da biodiversidade do Rio Paraná interliga o Parque Nacional do Iguaçu a outras unidades de conservação na região sul e sudeste do país. São caminhos seguros para a onça-pintada e a anta, por exemplo.

Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) e Reservas Legais

Outra iniciativa são as chamadas Reservas Legais (RL) para os proprietários de terras rurais criarem corredores ecológicos, conectando as suas propriedades às áreas vizinhas. Durante a demarcação da Reserva Legal, o proprietário pode escolher a localização da sua área protegida. Em vez de isolá-la no centro da fazenda, ele a posiciona nas divisas, conectando-a com a Reserva Legal ou com as Áreas de Preservação Permanente (APP) do vizinho.

Para quem é proprietário e se interessa pelo assunto, há um mecanismo econômico chamado Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) que recompensa financeiramente os proprietários rurais que adotam boas práticas de conservação e restauração ecológica em suas terras, o que pode se transformar numa fonte de renda ativa. A Política Nacional de PSA é regida pela Lei número 14.119/2021 e sua regulamentação mais recente pelo Decreto número 13.018/2026.

Essas iniciativas, os estudos acadêmicos e as políticas governamentais demoram para se espalhar em nosso país. Geralmente, por anos há tentativas de burlar a lei para obter vantagens enquanto a “coisa não pega” ou a fiscalização falha.

A responsabilidade ao volante

Podemos, enquanto isso, ajudar na conscientização, cobrar as autoridades e dirigir com cuidado, pensando sempre nas muitas possibilidades de imprevistos das viagens. Geralmente, confortáveis na direção, dentro de veículos modernos que se deslocam em altas velocidades, não percebemos o quão rápido estamos. Independente dos itens de segurança, ABS, capacidade de frenagem etc., em situações críticas, a velocidade é um fator contra o qual raramente estamos preparados.

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