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Pedágio Free Flow: vantagens da tecnologia e o desafio à cidadania

Free flow o fluxo livre de pedágio com cobrança automática

Estamos numa rodovia a 120 km/h, dentro do limite permitido, num feriado, voltando para a capital. O trânsito está carregado, mas flui. O fluxo de veículos parece ficar mais intenso. Num instante, um engarrafamento se forma. Não dá para entender o motivo. Seria um acidente? Talvez não. A lembrança de que a uns 5 km de distância há um pedágio passa a ser a melhor explicação. A viagem terá um atraso de 30 minutos, o tempo estimado para passar pelo pedágio, apesar da tag de passagem direta. Não importa se você paga uma mensalidade ou não, terá que esperar o tráfego passar.

Esse é um dos problemas resolvidos por uma tecnologia que vem chegando às nossas rodovias: O Free Flow ou fluxo livre. Hoje, é realidade em algumas estradas (poucas). Ele traz inegáveis benefícios ambientais e logísticos. O tráfego é livre e a cobrança “transparente”. Nessa última palavra reside o seu problema. A cobrança obriga o usuário a “se enquadrar”, sem opções.

Como funciona a tecnologia Free Flow?

Não há cabines, mas pórticos metálicos equipados com câmeras e sensores para leitura das tags e placas. O sistema usa antenas RFID (Radio-Frequency Identification). Através de campos magnéticos, um pequeno transmissor/receptor (transponder) expõe as tags a um campo eletromagnético. Também ela com transmissor e receptor, mas sem bateria, emite um identificador numérico ao dispositivo que expôs o sinal.

Além do RFID, faz parte do conjunto câmeras com a tecnologia OCR (Optical Character Recognition). Elas são equipadas com laser para ler as placas dos veículos, contar os eixos e medir a volumetria, mesmo em alta velocidade ou sob chuva.

As inegáveis vantagens para a infraestrutura e o meio ambiente

O Free Flow traz enormes vantagens. O fim dos congestionamentos em praças de pedágio é o primeiro e mais elementar. Mas, outros tão ou mais importantes como a segurança, sustentabilidade e a prometida “justiça tarifária” fazem parte do conjunto de benefícios.

A redução drástica de acidentes que costumam ocorrer (colisões traseiras) nas frenagens bruscas de chegadas aos pedágios é o principal deles. De 31% a 36% dos acidentes em rodovias decorrem de colisões traseiras. Os acidentes nas praças de pedágio perfazem 3% desse total – o que é um número grande, levando em consideração que o pedágio não é um elemento surpresa no contexto de uma viagem. As colisões nesses locais decorrem de falhas de cancelas, evasão de pedágios, desatenção e velocidade.

Além disso, há uma redução de 15% a 30% nas emissões de dióxido de carbono (CO2) decorrentes do free flow. Se você tem um medidor de consumo de combustível instantâneo em seu veículo, já percebeu que nas arrancadas até a terceira marcha ou no anda e para o marcador geralmente marca um valor abaixo de 5 ou 4 km/litro. Isso piora muito se for um caminhão.

Esse é um dos maiores ganhos de sustentabilidade dessa tecnologia. Há outros como desgaste de freios, embreagem, suspensão, motor e tudo o que é acionado com mais força ou carga nesse processo de parada e arranque. Há também a operação da praça. Concreto na construção, alargamento de faixas, pessoas se locomovendo e gastando energia para operar as praças.

O outro lado da moeda: a falta de opções e a armadilha do esquecimento

Quando sabemos o quanto estamos pagando, seja por tag ou direto na cabine, temos uma ideia do valor por praça/rodovia de pedágio. Por exemplo, numa rodovia em particular, pagamos o mesmo valor se rodarmos por 10 ou 50 km. O governo informa que a cobrança será mais “justa”, pois será proporcional ao trecho. Será? Quem fará essa comparação com o passado após a implementação da tecnologia? Ao cobrar por trecho, o acordo entre concessionária e governo fica muito mais “regulado”, ou seja, ajustes finos de tarifas podem ocorrer com maior precisão.

Como a concessão é uma concorrência entre poucas concessionárias, geralmente com ativos em bolsa de valores e exigências de lucros, o custo por km rodado passa a ser um fator de concorrência entre poucas empresas. Do lado do governo, a comparação é feita entre aquelas que estão disponíveis para assumir a concessão. E o custo para aqueles cidadãos que utilizam trechos curtos sendo mais baixo em relação às antigas praças de pedágio, a tendência é o estado aceitar as ofertas.

O resultado é que passamos a outro patamar: de tecnologia, logística, ambiental – melhores – e custos – provavelmente maiores. A economia com praças de pedágio e funcionários fica em segundo plano no médio e longo prazo. Gostaríamos de estar enganados sobre isso.

Outros problemas são relativos à falta de opções. É difícil fornecê-las num contexto desses, mas as pessoas que não usam tags serão obrigadas a lembrar de pagar a cobrança em até 15 dias entrando no site da concessionária.

É o autosserviço expandido ao limite. Além da dor de cabeça de entrar num site que a pessoa não quer, não conhece e com o qual terá que se familiarizar, com certeza será obrigado a se cadastrar deixando os seus dados pessoais, do seu veículo e, ao pagar, contará com a sorte para dar tudo certo.

É aquele tipo de burocracia que, por falta de opções, praticamente a obriga a comprar uma tag, o que transforma a operação numa venda casada. Inverte-se a lógica do serviço. O Estado/Concessionária transfere ao cidadão o ônus de ir atrás da cobrança imposta.

Há iniciativas para aumentar esse prazo. Essa equalização terá que ser feita, já que hoje as concessionárias recebem à vista. Se não pagar, a multa é grave, 5 pontos na CNH e mais de 195 reais de multa.

Projetos do Governo e Soluções para proteger o cidadão

O Estado tem criado algumas iniciativas para minimizar os problemas relativos ao desrespeito à cidadania. Notificações unificadas no aplicativo Carteira Digital de Trânsito, recebendo uma notificação push para pagamento em PIX, é uma delas. Isso não elimina, no entanto, a necessidade de incluir os “órfãos digitais“, turistas e pessoas idosas que não querem ou não se adaptam às tecnologias.

O uso de meios digitais, aliás, não para de excluir pessoas. É possível lembrar de vários casos para os quais não há opções ou são escassas ou são inviáveis, desde o acesso aos bancos até as validações digitais necessárias para alguns serviços do próprio governo.

Alguns projetos de leis estão sendo discutidos para estabelecer uma tag universal e gratuita, sem cobrança de mensalidade, mas ainda assim vinculada à conta Gov.br (digital). Há também algumas pressões legislativas no sentido de aumentar o prazo para pagamento para 30 ou até 60 dias. Mas, isso não virá sem ônus das concessionárias das rodovias, que repassariam o custo de oportunidade do período sem receber.

Conclusão: modernidade não pode custar a tranquilidade do motorista

O Free Flow é um caminho sem volta. É excelente para o país. Mas, precisa de um modelo de transição humano. A facilidade trazida pela tecnologia não pode transformar a vida das pessoas em “caçadoras de boletos”, ainda mais sob a constante ameaça de multas. Esse é um problema que deveria ter sido resolvido antes de qualquer implementação. Deveria ter sido um requisito para ela. No fim, parece que os interesses de um setor da sociedade, novamente, sobrepõe-se ao da maioria.

E você, concorda que o sistema atual prejudica quem não tem a Tag? Deixe sua opinião nos comentários abaixo!

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