A recente assinatura da ordem de serviço para o início das obras no Lote 2A da BR-487, conectando o distrito de Serra dos Dourados (Umuarama) a Cruzeiro do Oeste, pode ser desfecho de uma novela de quase sete décadas. Com 37,39 quilômetros de extensão e investimento de R$ 343,9 milhões via Novo PAC, este trecho inacabado representava uma das mais vergonhosas cicatrizes na infraestrutura do Noroeste do Paraná.
A BR-487 possui mais de 2.400 quilômetros planejados, ligando o Mato Grosso do Sul (a partir de Naviraí) a Ipiranga, no Paraná, integrando o promissor Corredor Bioceânico rumo ao Chile. Contudo, a sua porção no interior paranaense permaneceu travada. O motivo de o trecho entre Umuarama e Cruzeiro do Oeste ter ficado esquecido por tanto tempo envolve uma mistura crônica de entraves burocráticos, brigas locais para alteração de traçado de engenharia e a rigidez na obtenção de licenças ambientais. O desafio sempre foi pavimentar sem sufocar os frágeis ecossistemas de mata nativa remanescente e as bacias hidrográficas da região.
Historicamente, a Estrada da Boiadeira foi idealizada ainda no final do século XIX, mas sua abertura oficial e os primeiros traçados consolidados ocorreram em meados do século XX (década de 1950), com a forte motivação de escoar as grandes comitivas de gado que vinham do Centro-Oeste para o Sul. Daí o seu nome popular. Posteriormente, na década de 1980, as primeiras tentativas de pavimentação asfáltica começaram no governo do presidente João Figueiredo, mas o projeto acabou paralisado e abandonado em uma ciranda de promessas políticas não cumpridas. Vale ressaltar um ponto crucial para o bolso do motorista: a rodovia não é pedagiada, mantendo-se sob gestão pública federal via DNIT, o que garante competitividade imediata ao setor produtivo.
Do lado econômico, as vantagens são incontestáveis. Ao desviar o fluxo pesado dos perímetros urbanos e eliminar os atoleiros que isolavam a região em épocas de chuva, a obra reduz drasticamente o custo do frete. O Noroeste ganha fôlego para se transformar em um polo agroindustrial e logístico moderno, deixando de ser uma “região de passagem” precária.
Há, no entanto, o reverso da moeda: o impacto ambiental. A pavimentação inevitavelmente atrai um tráfego volumoso de caminhões pesados, aumentando as emissões de carbono e fragmentando ainda mais os ecossistemas locais. O asfalto impermeabiliza o solo, exigindo obras complexas de drenagem para evitar que a enxurrada destrua margens de rios locais. Além disso, a alta velocidade dos veículos traz o risco iminente de atropelamento da fauna silvestre.
A conclusão da Estrada da Boiadeira é uma vitória econômica inadiável para o Paraná. Cabe agora aos órgãos de fiscalização garantir que as medidas de compensação e barreiras de proteção ecológica saiam do papel com o mesmo vigor que as máquinas rasgam a terra. O progresso é bem-vindo, desde que não custe o futuro ambiental da região.
Você conhece o trecho? É da região, trabalhou na construção da obra ou teve ou já sente o resultado da obra no seu trabalho de motorista de caminhão, carro ou motocicleta finalmente mais tranquilo devido ao asfaltamento? Deixe o seu comentário abaixo!
